O presidente negro ou O choque das raças, a distopia de Monteiro Lobato do início do século 20 (1926), apresenta-nos várias tecnologias que ainda hoje, 99 anos após sua publicação, parecem ficção irrealizável mesmo pela ciência...

O presidente negro ou O choque das raças, a distopia de Monteiro Lobato do início do século 20 (1926), apresenta-nos várias tecnologias que ainda hoje, 99 anos após sua publicação, parecem ficção irrealizável mesmo pela ciência do terceiro milênio, embora muitas estejam em uso. Dentre essas tecnologias, a secção do cérebro é apresentada com o sarcasmo característico da crítica social do autor, que nos faz lembrar cenas de Tempos modernos, de Charlie Chaplin:
— Mas, continuou ela, voltando ao meu homem desdobrado, direi que pude observá-lo em ação no escritório do Herald.
Estava à mesa de trabalho, a examinar com o olho direito uma gravura antiga e a consultar uma tábua de logaritmos com o esquerdo. Ao mesmo tempo ouvia a música da moda com o ouvido direito e, com o esquerdo, atendia a um colaborador do jornal. Ocupava-se em quatro coisas diversas, valendo, assim, por quatro homens não desdobrados.
— H 4…
— E não ficava nisso. Era bem um Homo elevado, não à quarta, mas à sexta potência, porque ainda recolhia a queixa dum dos espíritos leitores do Herald — espírito rabugento, a avaliar por certos ímpetos nervosos da mão que estenografava.
— E com a outra mão, que fazia?
— Alisava meigamente um gatinho que lhe sentara no colo.
O “homem desdobrado” a que a personagem Miss Jane se refere resultara do experimento de divisão do cérebro, objetivando possibilitar que cada metade de seu corpo executasse diferentes funções, controladas pelos diferentes hemisférios cerebrais, otimizando-se, assim, sua capacidade de execução de atividades.
Diante desse experimento tecnológico digno das mais interessantes ficções científicas e dos demais apresentados no romance, uma das questões que pode nos ocorrer é de onde viria a matéria-prima que permeia a ficção científica de Lobato. Seria ele dono de uma mente tão criativa, em termos tecnológicos, a ponto de antecipar o que nem a ciência ousaria experimentar?
No caso da secção cerebral, é bem verdade que Lobato não foi o único a explorar o tema. Conforme nos revelam Mark F. Bear, Barry W. Connors e Michael A. Paradiso em Neuroscience: exploring the brain, cirurgias de split-brain foram experimentadas a partir da década de 1950, associadas principalmente às pesquisas de Roger Sperry (Prêmio Nobel de 1981) e de colaboradores como Michael Gazzaniga em pacientes portadores de epilepsia.
A secção do corpo caloso, com a consequente separação dos dois hemisférios cerebrais (calosotomia) foi realizada em pacientes com epilepsia severa, visando à redução das convulsões, e permitiu a neurocientistas o estudo das funções distintas de cada hemisfério (lateralização cerebral). A calosotomia envolve a secção completa ou parcial do corpo caloso, a principal conexão entre os hemisférios cerebrais, para tratar a epilepsia.
Os experimentos de Sperry e Gazzaniga usavam estímulos visuais e táteis para testar a independência dos hemisférios. Quando uma imagem era apresentada ao campo visual esquerdo – processado pelo hemisfério direito –, o paciente não podia descrever o que via, mas podia apontar com a mão esquerda, o que demonstrava que os hemisférios são especializados em diferentes funções.
Estudos subsequentes revelaram que cada hemisfério pode operar de forma semi-independente, com o esquerdo associado à linguagem e, o direito, à percepção espacial. Os pacientes submetidos à split-brain exibiam comportamentos dissociados, como a mão esquerda (controlada pelo hemisfério direito) realizando ações diferentes das da mão direita (controlada pelo hemisfério esquerdo).
Como se pode notar, a criatividade preditiva de Lobato antecede os resultados das pesquisas de Speerry e Gazzaniga em um quarto de século. Independentemente de sua fonte, porém, a conclusão a que o autor nos quer conduzir ressoa ainda hoje como um alerta que não deve ser menosprezado:
— Mas não foi coisa que se generalizasse, continuou a moça. A ruptura por intervenção humana dos planos normais da natureza nunca foi bem sucedida. Sobrevinham sempre complicações imprevisíveis à argúcia dos sábios, e irremediáveis. Esse pobre desdobrado, por exemplo, acabou logo depois de maneira trágica. Em vez de persistir na sua sexta potência, empastelou-se, confundiu-se e acabou não sendo nem sequer um homem apenas, como antes da operação.
Vanete Santana-Dezmann
Pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP
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